Uma linha do tempo das Distribuições Linux

No começo, instalar o Linux era uma tarefa ingrata. Tudo o que existia era o código fonte do Kernel, que precisava ser compilado (usando o Minix ou outro sistema operacional) e combinado com outros utilitários e bibliotecas (que também precisavam ser compilados, um a um) para que você tivesse um sistema operacional funcional. Isso explica porque nos primeiros meses, após o célebre anúncio feito por Linux Torvalds em agosto de 1991, o Linux tinha apenas algumas dezenas de usuários, a maior parte deles programadores, que em maior ou menor grau participavam do desenvolvimento do sistema.

Alguém chegou então a uma conclusão óbvia: por que não distribuir versões já compiladas do sistema, que pudessem ser instaladas diretamente? Surgiram então as primeiras distribuições Linux, que rapidamente passaram a ganhar novos adeptos.

A primeira distribuição de que se tem notícia é um par de disquetes, chamados simplesmente de “Boot/Root”, que foram desenvolvidos no final de 1991 por HJ Lu (que até hoje participa do desenvolvimento do Kernel). Eles incluíam apenas o mínimo necessário para inicializar o sistema e rodar algumas ferramentas básicas, em modo texto. Não era exatamente uma “distribuição Linux” no sentido atual, mas foi um ponto de partida.

O “Root/Boot” foi sucedido por distribuições como o MCC Interim Linux (lançado em fevereiro de 1992), o SLS Linux (maio de 1992) e o Yggdrasil (novembro de 1992). Cada uma delas segue uma idéia bastante diferente. O MCC era uma distribuição em modo texto, mas que oferecia um conjunto mais completo de aplicativos e compiladores. O SLS era distribuído na forma de um conjunto de arquivos .zip, que eram usados para gerar os disquetes de instalação, a partir do MS/DOS, enquanto o Yggdrasil foi uma espécie de antecessor dos live-CDs. Você dava boot através de um disquete e o sistema rodava a partir de um CD-ROM, com direito a ambiente gráfico e a opção de instalá-lo no HD usando um script em shell. O sistema era extremamente lento (os PCs da época usavam CD-ROMs 1x ou 2x e tinham apenas 4 ou 8 MB de memória), mas funcionava.

A distribuição mais antiga ainda ativa é o Slackware, lançado em julho de 1993. O Slackware é uma das distribuições mais espartanas, que tem como objetivo preservar a tradição dos sistemas Unix, provendo um sistema estável, organizado, mas com poucas ferramentas automatizadas, que te obriga a estudar e ir mais a fundo na estrutura do sistema para conseguir usar. Muita gente usa o Slackware como ferramenta de aprendizado, encarando os problemas e deficiências como um estímulo para aprender.

Temos aqui o famoso instalador em modo texto, que é usado por todas as versões do Slackware:

Assim como quase todas as distribuições atuais, o Slackware começou como um “remaster” de uma distribuição anterior (o SLS Linux), incluindo diversas modificações e melhorias.

Esta é, justamente, a característica mais marcante do desenvolvimento do sistema. Novas distribuições raramente são criadas do zero; quase sempre é usada uma distribuição já existente como base, o que permite que os desenvolvedores se concentrem em adicionar novos recursos e corrigir problemas, aumentando radicalmente a velocidade de desenvolvimento de novos projetos.

Pouco depois, em novembro de 1994, foi lançado o Red Hat, que foi desenvolvido com o objetivo de facilitar a configuração e automatização do sistema, incluindo várias ferramentas de configuração. Apesar de sua alma comercial, todas as ferramentas desenvolvidas pela equipe do Red Hat tinham seu código aberto, o que possibilitou o surgimento de muitas outras distribuições derivadas dele, incluindo o Mandrake (França), o Conectiva (Brasil) e o SuSE (Alemanha).

O Red Hat foi a primeira distribuição a usar um sistema de gerenciamento de pacotes, onde cada programa incluído no sistema é transformado em um pacote compactado, que pode ser instalado através de um único comando. O sistema guarda as informações dos pacotes instalados, permitindo que você possa removê-los completamente depois (sem deixar restos de bibliotecas e chaves de registro, como no Windows). O uso do gerenciamento de pacotes é uma das diferenças mais visíveis entre o Linux e o Windows: no Windows você clica no executável do programa e é aberto um instalador; no Linux você usa o gerenciador de pacotes para instalar os programas que quer usar. Aqui temos o venerável Red Hat 9, lançado em 2003:

A partir de 2003 a Red Hat mudou seu foco, concentrando seus esforços no público empresarial, desenvolvendo o Red Hat Enterprise Linux (RHEL) e vendendo pacotes com o sistema, suporte e atualizações. A conseqüência mais marcante da decisão foi a descontinuidade do Red Hat Desktop, que era até então a distribuição Linux com o maior número de usuário.

A última versão foi o Red Hat 9. A partir daí, passou a ser desenvolvido o Fedora, combinando os esforços de parte da equipe da Red Hat e vários voluntários que, com a maior abertura, passaram a contribuir com melhorias, documentações e suporte comunitário nos fóruns. O Fedora herdou a maior parte dos usuários do Red Hat Desktop, tornando-se rapidamente uma das distribuições mais usadas.

Em seguida temos o Mandrake começou de uma forma modesta, como uma versão modificada do Red Hat, lançada em julho de 1998, cuja principal modificação foi a inclusão do KDE (ainda na versão 1.0). O KDE e o Gnome são os dois ambientes gráficos mais usados no Linux, dividindo a preferência dos usuários e das distribuições. Ambos rodam sobre o X, usando os recursos oferecidos por ele. O X cuida do acesso à placa de vídeo, teclado, mouse e outras funções “base”, enquanto o KDE ou Gnome cuidam da interface que é mostrada a você.

Superando todas as expectativas, o Mandrake conquistou rapidamente um grande número de usuários. A partir de um certo ponto, ele passou a ser desenvolvido de forma independente, sempre com o foco na facilidade de uso. Muita gente começou a usar Linux justamente com o Mandrake 10 e 10.1:

O Conectiva foi a primeira distribuição Linux nacional e por muito tempo foi uma das mais usadas por aqui, atendendo tanto usuários domésticos, quanto empresas. Em 2005 aconteceu a fusão entre o Mandrake e o Conectiva, que deu origem ao atual Mandriva, uma evolução do Mandrake, que passou a ser desenvolvido combinando os esforços das equipes em ambas as distribuições.

A história do SuSE é um pouco mais complicada. As primeiras versões foram baseadas no SLS (assim como o Slackware). Em 1995 os scripts e ferramentas foram migrados para o Jurix, que por sua vez era baseado no Slackware. A partir da versão 5.0, lançada em 1998, o SuSE passou a utilizar pacotes RPM, o formato do Red Hat e passou a incorporar características e ferramentas derivadas dele. Todas estas ferramentas foram integradas no Yast, um painel de controle central que facilita bastante a administração do sistema.

Devido a todas estas mudanças, o SuSE é difícil de catalogar, mas atualmente o sistema possui muito mais semelhanças com o Fedora e o Mandriva do que com o Slackware; por isso é mais acertado colocá-lo dentro da família Red Hat.

Em 2003, a SuSE foi adquirida pela Novell, dando origem ao Novell Desktop (uma solução comercial) e ao OpenSuSE, um projeto comunitário, que usa uma estrutura organizacional inspirada no exemplo do Fedora.

Ao contrário do Ubuntu e mesmo do Mandriva, o OpenSuSE tem uma base de usuários relativamente pequena aqui no Brasil. Parte disto se deve ao fato de, no passado, o SuSE ter sido uma distribuição fortemente comercial. O sistema não era disponibilizado para download e mesmo a compra das caixinhas era complicada, já que não existia uma filial nacional. Só com a abertura do sistema depois da compra pela Novel é que o OpenSuSE passou a recuperar o terreno perdido.

Finalmente, temos o Debian, que é provavelmente a maior distribuição Linux não-comercial, tanto em volume de desenvolvedores quanto em número de usuários, diretos e indiretos.

O primeiro anúncio público do Debian foi feito em agosto de 1993, mas a primeira versão (chamada Buzz) foi finalizada apena em 1996. A demora se deu devido ao tempo necessário para desenvolver as ferramentas de gerenciamento de pacotes, as ferramentas de atualização do sistema e de manutenção dos repositórios e toda a metodologia de desenvolvimento que continua até hoje.

O Debian utiliza um sistema de desenvolvimento contínuo, onde são desenvolvidas simultaneamente 3 versões, chamadas de Stable (estável), Testing (teste) e Unstable (instável). A versão estável é o release oficial, que tem suporte e atualizações de segurança freqüentes. A versão estável atual é a Wheezy (7.8), lançado em 10 de janeiro de 2015. Atualmente, novas versões estáveis do Debian são lançadas a cada 18 meses.

A versão instável do Debian é a mais peculiar. Ela é uma eterna versão de testes, que não é finalizada nunca. Ela serve como um campo de testes para novos programas e novas versões dos pacotes já existentes, permitindo que os problemas sejam detectados e corrigidos. Ao usar a versão instável, você tem acesso às versões mais recentes de todos os programas, mas, em compensação, não existe garantia de estabilidade. Um programa que funciona perfeitamente hoje pode deixar de funcionar amanhã e ser novamente corrigido na versão seguinte. Um erro em algum dos pacotes base pode fazer com que o sistema deixe de inicializar depois de atualizado e assim por diante.

As versões estáveis do Debian são tão estáveis justamente porque ficam congeladas, recebendo apenas atualizações de segurança e correções de bugs. Diz a teoria que se você continuar corrigindo bugs em um programa, sem adicionar outros no processo, em um determinado momento você chegará a um programa livre de falhas.

O maior problema é que, devido ao longo intervalo entre os lançamentos das versões estáveis, os pacotes acabam ficando defasados em relação a outras distribuições, que utilizam um ciclo de releases mais curto. Para amenizar o inconveniente, existe a opção de usar o Testing, que é uma prévia da próxima versão estável. Como o Testing é uma versão “incompleta”, que ainda está em desenvolvimento, normalmente o utilizamos em conjunto com o Unstable, de forma que pacotes que ainda não estejam disponíveis no Testing, possam ser instalados a partir dele.

Tipicamente, os pacotes começam no Unstable, onde recebem uma primeira rodada de testes e, depois de algumas semanas, são movidos para o Testing. Periodicamente, os pacotes no Testing são congelados, dando origem a uma nova versão estável. Além destes, existe o Experimental, usado como um laboratório para a inclusão de novos pacotes.

O Debian em si é bastante espartano em termos de ferramentas de configuração e por isso é mais popular em servidores do que em desktops. Entretanto, por oferecer um repositório de pacotes incrivelmente completo, o Debian é usado como base para o desenvolvimento de inúmeras outras distribuições.

A mais famosa delas é sem dúvidas o Ubuntu, que é provavelmente a distribuição Linux mais usada atualmente. Ele é desenvolvido pela Ubuntu Foundation, uma organização sem fins lucrativos, que por sua vez é patrocinada pela Canonical Inc., que ganha dinheiro vendendo suporte, treinamentos e customizações do Ubuntu. Esta combinação de ONG e empresa tem dado muito certo, combinando os esforços de um sem número de voluntários e um grupo de desenvolvedores bem pagos que trabalham em tempo integral no desenvolvimento do sistema.

Ao invés do tradicional 1.0, 2.0, 3.0, etc., o Ubuntu usa um sistema de numeração das versões bastante incomum. Os releases são numerados com base no mês e ano em que são lançados e recebem um codenome. A primeira versão oficial foi a Ubuntu 4.10 (lançada em outubro de 2004), apelidada de “Warty Warthog”, seguido pela 5.04 (lançada em abril de 2005), apelidada de “Hoary Hedgehog”, sendo a 14.10 (lançada em outubro de 2014), apelidada de “Utopic Unicorn”, a mais atual.

As versões regulares do Ubuntu recebem atualizações e correções durante um período de 18 meses, de forma que você acaba sendo obrigado a atualizar o sistema a cada três versões. Como uma opção para quem quer mais estabilidade e a opção de manter o sistema por mais tempo, existem as versões LTS (long term support), que recebem atualizações por um período de 3 anos (estações de trabalho) e 5 anos (servidores). Elas são as versões recomendáveis para estações de trabalho e para uso em empresas.

As versões LTS são montadas dentro de um controle de qualidade mais estrito e passam por um período de testes mais longo, resultando em versões mais estáveis. A primeira versão LTS foi o 6.06 (que receberá atualizações até junho de 2009), seguido pelo 8.04 (atualizações até abril de 2011), sendo a 14.04 (atualizações até abril de 2019) a mais atual. Se os planos não mudarem, a próxima versão LTS será o 16.04, planejado para abril de 2016.

Vale salientar que, à partir da versão 12.04, o período de atualizações do sistema tornou-se equivalentes (5 anos para estações de trabalho e servidores).

Nas primeiras versões, o Ubuntu era fornecido em duas versões diferentes. O “Live CD” (que rodava diretamente a partir do CD-ROM) e o “Install CD”, a versão principal, que era instalada através de um instalador em modo texto, derivado do instalador do Debian Sarge:

A partir do 6.10 as duas versões foram unificadas. O sistema passou a ser um Live-CD (chamado de “Desktop Edition”), que pode ser instalado diretamente.

O maior problema com o Desktop Edition é que o boot do sistema é demorado e ele fica muito lento em máquinas com menos de 512 MB de RAM. Para quem usa máquinas antigas, ou prefere instalar o sistema diretamente, sem primeiro esperar o carregamento do desktop, está disponível o “Alternate CD”, que inclui os mesmos pacotes, mas é instalado através do instalador em modo texto.

Apesar de ser distribuído em um único CD, o Ubuntu utiliza um repositório bastante completo. Ao instalar o sistema, você tem um desktop pré-configurado, contendo um conjunto básico de aplicativos, que você pode personalizar instalando pacotes adicionais. Os repositórios do Ubuntu são construídos a partir do repositório unstable do Debian, processo no qual os pacotes recebem correções diversas e são recompilados, gerando o repositório “universe”.

O Ubuntu deu origem a diversas distribuições, como o Kubuntu (baseado no KDE), o Xubuntu (baseado no XFCE) e assim por diante, que compartilham o mesmo repositório, mas são baseadas em conjuntos diferentes de pacotes.

Está disponível também o “Server Edition”, uma versão destinada a servidores, que é baseada no mesmo repositório, mas instala apenas os componentes básicos do sistema, criando uma instalação enxuta onde podem ser instalados os serviços desejados.

Em resumo, podemos classificar as distribuições Linux em três grandes famílias: As derivadas do Red Hat, como o Fedora e o Mandriva, as derivadas do Debian, como o Ubuntu e o Kubuntu e as derivadas do Slackware, como o Slax.

Apesar das diferenças estéticas, distribuições da mesma família são muito similares na organização dos arquivos, gerenciamento de pacotes, localização dos arquivos de configuração e assim por diante, de forma que é mais fácil para alguém acostumado com o Debian migrar para o Ubuntu, que faz parte da mesma família, do que migrar para o Fedora, por exemplo, que tem raízes completamente diferentes.

Você pode ver uma tabela mais completa com as origens de cada distribuição neste link do Distrowatch: http://distrowatch.com/dwres.php?resource=independence

Entre as distribuições nacionais, temos o Kurumin NG (baseado no Kubuntu), o DreamLinux (baseado no Debian), o Big Linux (baseado no Ubuntu), o BrDesktop (baseado no Debian Stable) e o GoblinX (baseado no Slackware).

No total, existem mais de 500 distribuições Linux sendo desenvolvida ativamente. Se incluirmos também as distribuições descontinuadas, o número sobe para mais de 2.000. Basicamente, qualquer pessoa ou empresa com tempo e conhecimentos suficientes pode desenvolver uma distribuição, tomando como base outra distribuição já existente como ponto de partida. O enorme volume de distribuições é ao mesmo tempo o principal defeito e o principal atrativo do Linux.

Defeito no sentido de que a falta de um sistema “padrão” (como no caso do Windows) gera confusão e retarda a adoção do sistema em muitos nichos e atrativo no sentido de que é justamente o grande número de distribuições e o processo de seleção natural que ocorre naturalmente entre elas que faz com que o sistema evolua tão rapidamente e seja capaz de se adaptar a ambientes tão diferentes.

Fonte: Guia do Hardware

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